DEVANEIOS DE PRIMAVERA
Dezembro. Fim da primavera. Dentro de alguns dias o verão virá e se tornará o rei. O langor das flores dará lugar ao torpor dos dias quentes. No meu coração a primavera continuará. Tudo para mim sempre começa com flores e eu não quero que acabe. Não quero que as flores se desvaneçam e os sonhos se dissipem com elas.
Há sempre muitas maneiras de se dizer. A minha maneira é sempre por metáforas e nas horas quietas da noite onde as metáforas cotidianas personificam-se e tornam-se vivas, fazendo com que as horas quietas dancem ao som dos violinos e flautas. A minha maneira de dizer, hoje, não será diferente.
Há muitos luares, sempre os houve, pois o “Creador” os “creou” e os coloca à minha frente. Muitos realizados pelas mãos do Real. E eu danço com todos, colho flores para todos, amo-os. Há muitos, mas é você que está na aurícula direita do meu coração. É você que vejo refletido nas águas límpidas do lago. É você que sorri nas estrelas. É você que vem com o vento da tarde e entra pela minha janela permanecendo no meu aconchego até que o sono nos leve para os passeios noturnos pelo éter. É o seu cheiro que sinto ao aspirar o perfume de um jasmim. É o seu gosto que me vem à boca ao morder o pêssego. É a sua pele que toca a minha quando me cubro com os floridos lençóis para aquecer-me no frescor das madrugadas. É a sua voz que ouço na flauta que toca meiga e alegre. É você que vem com a abelha que pousa no bago de cana que trago nas mãos e me pica, doído, deixando seu ferrão e com ele o veneno que tento extrair, em vão. Há muitos, mas todos são vazios. Todos são doces, meigos, ternos, mas não sabem “abelhar-se”. Não picam e não têm veneno. E eu, gosto “de viver perigosamente”.
Para você, que eu chamo de “Luar de Maio”, bem a meu gosto, metaforicamente, é que dedico estas minhas horas de devaneio. Pelo amor que provavelmente não viveremos, que voará nas asas das pombas que habitam meu sótão e saem todas manhãs em busca de alimento. Voarei com elas, espalharei novamente sementes de amor. Com olhos de pássaro.Ruth Martins
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